EXISTENCIALISMO

16/03/2011 at 19:12 (TEH I)

Todos nós precisamos de certo senso histórico para apreciar o rumo que tomam as coisas em seu percurso temporal. Quanto ao existencialismo é preciso dizer que se origina no âmbito da filosofia – e desde aqui se estende para as ciências humanas, em particular para a psicologia. Por essa razão propõe de partida uma concepção elaborada de homem, que se encontra desenvolvida nas grandes figuras deste movimento (singularmente em Hiedegger, Kierkegaard, Sartre, Buber). Todos estes pensadores se colocam uma questão fundamental: qual é o ser do homem? Esta é a chamada questão ontológica. O homem é existência: esta é a resposta. O próprio do homem é sua existência. Resta então estabelecer as características peculiares da existência.

Nos anos que se seguiram a II Guerra Mundial, um movimento existencialista adquiriu importância na Europa e rapidamente espalhou-se pelos Estados Unidos. O movimento nasceu da resistência francesa à ocupação alemã e seus mais articulados porta-vozes foram Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Sartre era um brilhante estudante de Sorbone que se tornaria mais tarde um eminente filósofo, escritor e jornalista. Camus, natural da Algéria, ficou famoso como romancista e ensaísta. Assim, nascido no século XIX, através das idéias do filósofo dinamarquês Kierkegaard, esta vertente filosófica e literária conheceu seu apogeu na década de 50, no pós-guerra, com os trabalhos de Heidegger e Jean-Paul Sartre. A contribuição mais importante desta escola é sua ênfase na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre-arbítrio.

Por existencialismo entende-se “o conjunto de doutrinas segundo as quais a filosofia tem como objetivo a análise e a descrição da existência concreta, considerada como ato e como uma liberdade que se constitui afirmando-se que tem unicamente como gênese ou fundamento esta afirmação de si” (Jolivet, 1975). Não se trata de uma única doutrina. Entretanto, existe algo de comum entre eles, que é a preocupação em compreender e explicar a existência humana. O existencialismo moderno surgiu na França e na Alemanha há mais de 40 anos. Parece não haver dúvidas em que o pensamento filosófico existencial procede das meditações de Kierkegaard, mas Heidegger, Sartre, Jaspers, Nietzsche, Buber são também nomes importantes na expressão da convicção de que a realidade última somente pode ser encontrada na existência individual e concreta.

Como normalmente acontece com esses movimentos de vanguarda endossados por uma classe heterogênea de pessoas – artistas, escritores, inlectuais, clérigos, universitários, dissidentes e rebeldes de vários tipos – o existencialismo acabou por significar muitas coisas diferentes. Considerando-se sua base popular, seus clichês e slogans e suas divisões, este movimento poderia ter se esgotado em poucos anos como aconteceu com a maioria das modas inlectuais. O fato de não ter tido esse destino, mas ter, ao contrario, emergido como poderosa força no pensamento moderno, incluindo a psicologia e a psiquiatria, pode ser atribuído à descoberta de que o existencialismo possuía uma tradição vigorosa, com antepassados de prestígio, bem como sólidos proponentes contemporâneos.

A sua figura ancestral mais notável foi o excêntrico dinamarquês Soren Kierkegaard (1813- 1855) – um escritor prolitico, apaixonado e polemico, cujos livros constituem uma espécie de escritura sagrada para o existencialismo.  Foi este filósofo que legou ao existencialismo a idéia central da liberdade do homem, bem como de sua eterna aflição perante a falta de um projeto que regeria a caminhada humana, o que deixa o indivíduo à mercê de suas próprias decisões e atitudes. Ele vê a realidade como um feixe de possibilidades diante das quais o ser, com sua liberdade de escolha, pode optar pelas que mais lhe convém. Estes caminhos podem ser englobados, para ele, em três opções primordiais – o estilo estético, no qual cada um busca aproveitar ao máximo cada momento; o estilo ético, dentro do qual o homem procura viver com atitudes corretas e morais; e o estilo religioso, que se apóia sobre a fé.

O existencialismo pressupõe que a vida seja uma jornada de aquisição gradual de conhecimento sobre a essência do ser, por esta razão ela seria mais importante que a substância humana. Seus seguidores não crêem, assim, que o homem tenha sido criado com um propósito determinado, mas sim que ele se construa à medida que percorre sua caminhada existencial. Portanto, não é possível alcançar o porquê de tudo que ocorre na esfera em que vivemos, pois não se pode racionalizar o mundo como nós o percebemos. Esta visão dá margem a uma angústia existencial diante do que não se pode compreender e conceder um sentido. Resta a liberdade humana, característica básica do Existencialismo, a qual não se pode negar.

Coube a Sartre batizar esta escola filosófica com a expressão francesa ‘existence’, versão do termo alemão ‘dasein’, utilizado por Heidegger na sua obra Ser e Tempo. Além destes filósofos renomados, o movimento contava também com Albert Camus – adepto destes postulados apenas no campo literário – e Boris Vian.

Uma longa lista de nomes foi acrescentada ao existencialismo:

Bérgson, Dostoievsky e Nietzche.

Entre os mais modernos:

Buber, Heidegger, Jaspers, Marcel, Merleau-Ponty e Tillich.

Heidegger e JAspers são considerados por Barret os criadores da filosofia existencial do nosso século.

A idéia central da ontologia de Heidegger (ontologia é o ramo da filosofia que trata do ser ou da existência) é a seguinte:

O homem é um ser-no-mundo. Ele não existe com um Eu ou um sujeito em relação a um mundo externo; não é tampouco uma coisa ou um objeto, ou um corpo interagindo com as outras coisas que fazem no mundo. O homem tem sua existência por ser-no-mundo e o mundo tem sua existência porque há um Ser para revelá-lo. A filosofia existencial de Heidegger encontra-se no seu livro Ser e Tempo (1962), que é considerado um dos livros de maior influencia sobre a filosofia moderna – bem como o mais difícil.

Para os existencialistas, a existência tem prioridade sobre a essência humana, portanto o homem existe independente de qualquer definição pré-estabelecida sobre seu ser.

O indivíduo, no princípio, somente tem a existência comprovada. Com o passar do tempo ele incorpora a essência em seu ser. Não existe uma essência pré-determinada.

Com esta frase, os existencialistas rejeitam a idéia de que há no ser humano uma alma imutável, desde os primórdios da existência até a morte. Esta essência será adquirida através da sua existência. O indivíduo por si só define a sua realidade.

“… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.” (Sartre, o Existencialismo é um Humanismo)

O existencialismo focaliza o ser particular e concreto cuja responsabilidade e liberdade se fazem presentes. É o homem a categoria central da existência na expressão de Kierkegaard. E o que são essência e existência? A essência de uma coisa é o que resta, despojando-se-lhe de todo o contingente. É a coisa em si sem precisar de algo que a qualifique. A existência não é caracterizada como uma entidade estável, senão como uma relação constante consigo mesma e como o mundo; é uma contínua criação, um contínuo vir-a-ser.

Existência precede à essência” significa dizer que o homem precisa escolher a cada momento o que será no momento seguinte; só existindo poderá ser. Significa dizer que o indivíduo é um ser de quem não se pode afirmar nenhuma essência, uma vez que a essência invocaria uma idéia permanente e contraditória como a proposta de autocriação.

Segundo Tillich (1952), o existencialismo “é um elemento inserido no essencialismo. A fim de descrever o negativo no ser e na vida, é necessário considerar seu impacto sobre o positivo, mas somente através desse impacto o negativo adquire realidade. Não existe nenhuma descrição existencialista do negativo na situação humana sem uma imagem subjetiva do que o homem é essencialmente e, por fim, deveria ser”.

Para ele, é possível descrever a natureza essencial do homem, assim como a sua situação existencial. Na sua expressão existe uma natureza particular, que é a capacidade para criar-se. O que se questiona é a forma pela qual essa capacidade é possível e como é estruturada. O existencialismo puro não existe, nem na teologia nem na filosofia, já que só pode existir dentro do marco essencialista. Assim, só pode haver liberdade de criação se houver uma infra-estrutura na qual o indivíduo atua.

O existencialismo pressupõe que a vida seja uma jornada de aquisição gradual de conhecimento sobre a essência do ser, por esta razão ela seria mais importante que a substância humana. Seus seguidores não crêem, assim, que o homem tenha sido criado com um propósito determinado, mas sim que ele se construa à medida que percorre sua caminhada existencial. Portanto, não é possível alcançar o porquê de tudo que ocorre na esfera em que vivemos, pois não se pode racionalizar o mundo como nós o percebemos. Esta visão dá margem a uma angústia existencial diante do que não se pode compreender e conceder um sentido. Resta a liberdade humana, característica básica do Existencialismo, a qual não se pode negar.

A corrente existencialista assimilou ainda uma influência da fenomenologia cuja figura principal, Husserl, já citado, propõe a descrição dos fenômenos tais como eles parecem ser, sem nenhum pressuposto de como eles sejam na verdade. Para o existencialismo, a fenomenologia de Husserl significou um interesse novo no fenômeno da consciência.

Reunindo as sínteses do pensamento de cada um dos filósofos existencialistas podemos listar os postulados principais dessa corrente filosófica que são:

1. A primeira é o ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias gerais sobre o homem. Há uma preocupação com o sentido ou o objetivo das vidas humanas, mais que com verdades científicas ou metafísicas sobre o universo. Assim, a experiência interior ou subjetiva – e aí está a influência da fenomenologia – é considerada mais importante do que a verdade “objetiva”, um fundamento igual à da filosofia oriental.

2. O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os objetos que o próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz em sua própria existência.

3. O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é;

4. A falta de sentido, a liberdade conseqüente da indeterminação, a ameaça permanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença em si mesmo e ao desespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos como a sua propriedade humana distintiva mais importante, da qual não pode fugir.

Martin Buber e a Abordagem Dialógica

– essa abordagem se fundamenta na crença existencialista de que a base última da existência humana é relacional. Ela implica numa mudança de paradigma do EU como sistema fechado e individualizado para o paradigma do EUcomo realidade relacional, constituindo-se no face a face dialogal com um TU, diferente desse EU.

– Buber é o filósofo do Diálogo e seus trabalhos tem inspirado todas as psicoterapias dialógicas e as Ciências Humanas em geral, especialmente através de sua ora principal, intitulada “EU E TU”. De família judia, nasceu em Viena em 08 de março de 1878 e morreu em Jerusalém em 13 de junho de 1965.

Quando prioriza o dialógico na constituição do humano, Buber afirma uma série de princípios a respeito da questão fundamental “O QUE É O HOMEM?”. O que é o homem, para uma filosofia que alimenta todo seu pensamento, toda sua ontologia sobre este ser, na questão do Diálogo?

Buber acredita que o homem é um ser-em-relação, sendo esta condição constitutiva. Assim, o homem terá seu modo-de-ser, ou seja, terá uma maneira de se colocar frente ao mundo, adotando, para Buber, duas atitudes distintas:

– EU-TU e EU-ISSO.

Ambas atitudes se revelam no relacionamento do homem com todo e qualquer ser. Ambas são modos de existência possível, que se manifesta alternativamente em todo e qualquer homem.

– Buber se inspira em Feuerbach (1804-1872) que, por sua vez, insiste na necessidade de uma experiência do TU para termos consciência de nós mesmos enquanto EU. Ou seja, a singularidade humana não se constitui no isolamento, mas no encontro com o outro.

– a contribuição distintiva de Buber ao pensamento existencialista consiste no reconhecimento destas duas atitudes ou relacionamentos, sendo que quanto ao EU-TU, Buber chama de RELAÇÃO.

Assim, para Buber o homem não é definido por razão, mas por sua capacidade de constituir-se no ENTRE – espaço gerador do ser do homem, mostrando que não há posse, está além do EU e aquém do TU.

EU-ISSO – contato, estrutura de relacionamento entre um ser egótico, um ego e um objeto manipulável, estabelece uma atitude objetivante, de experiência e utilização. Entre o EU e o ISSO sempre existe algo ou intenção intermediando o relacionamento.

O relacionamento é visto como um meio, tem uma finalidade, é necessário à existência, por essa atitude, adquirimos experiência, conhecimento, transformamos e organizamos o mundo em bens e utilidades.

Aqui, ter um objetivo é fazer um recorte em si e no outro, do que lhe interessa, não envolve a totalidade.

EU-TU – relação de encontro, não possui coisa alguma, permanece na relação. Não existe intermediários, a relação é direta. Não é uma relação sujeito/objeto, mas sim, sujeito/sujeito em sua totalidade. Nessa perspectiva, podemos afirmar que não podemos conhecer jamais o todo do homem, mas podemos entrar em relação com o todo do homem. A relação EU-TU tem uma característica própria: o engajamento ou o compromisso. Quando me relaciono com um ser de forma dialogal este se torna aquele ao qual devo responder. Torno-me res-ponsável: comprometido com a resposta.

Nos relacionamentos EU-ISSO podemos conhecer e utilizar, no EU-TU podemos criar.

Nenhum homem pode fugir das Coisas ou do TU, ele pode apenas recusar-se à Resposta. Recusar-se a comprometer-se com o Diálogo. Recusar as Coisas é alienar-se das exigências do mundo. Recusar o TU é alienar-se de si mesmo.

 

O EXISTENCIALISMO NA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA

O existencialismo proclama a liberdade, a abertura às possibilidades e a procura de um sentido como características precípuas da aventura humana, em oposição aos outros enfoques que acentuam a importância do determinismo, da necessidade e da simples satisfação oréxica. Skinner afirma que a liberdade é um mito; Freud acreditava no determinismo psíquico; e todos eles não entendem a procura do sentido como uma motivação básica.

Não sendo uma verdadeira escola psicológica, é uma atitude que tem influenciado quase todas as formas de terapia que surgiram em oposição à psicanálise ortodoxa. Aliando-se à chamada terceira força em psicologia, a psicologia humanista passou a ser considerada existencial-humanista.

Ao rejeitar a causalidade a psicologia existencial também rejeita o positivismo, o determinismo e o materialismo. Ela afirma que a psicologia não é como as outras ciências e não deve seguir-lhes o modelo. Ela requer o seu próprio método – a fenomenologia – e seus próprios conceitos – ser-no-mundo, modos de existência, liberdade, responsabilidade, vir-a-ser, transcendência, espacialidade, temporalidade e muitos outros.

A psicologia existencial também nega que exista alguma coisa subjacente ao fenômeno, que o explica e causa seu aparecimento. Explicações da existência humana em termo de “eu”, do inconsciente, de uma energia física ou psíquica, ou de forças como os instintos, as ondas cerebrais, os impulsos e os arquétipos são postas de lado. Os fenômenos são o que são em todo o seu imediatismo; eles não são uma fachada ou o derivativo de alguma outra coisa. É, ou deveria ser o trabalho da psicologia descrever os fenômenos tão cuidadosamente quanto possível. O fim da ciência psicológica é a descrição fenomenológica ou a compreensão, e não a explicação causal ou a prova. Ver o que há para ser visto sem qualquer hipótese ou julgamento prévio é a prescrição do psicólogo existencial para o estudo do comportamento.

Seria errado concluir que a psicologia existencial é basicamente otimista e esperançosa a respeito do homem. Ela está tão preocupada com a vida quanto com a morte. O Nada está sempre aos nossos pés. O horror está tão presente quanto o amor nos escritos existencialistas. Não pode haver luz sem trevas. Uma psicologia que faz da culpa uma características inata e inevitável da existência não oferece muito consolo ao homem. “eu sou livre” significa ao mesmo tempo “eu sou completamente responsável pela minha existência”. Tornar-se um ser humano é um processo árduo e poucos o conseguem.

Alguns conceitos básicos da psicologia existencial:

– a estrutura da existência: ser-no-mundo –

O homem não tem existência independente do mundo e o mundo não tem existência independente do homem. “O homem revela o mundo” (Boss).

O ser-no-mundo cura a cisão entre sujeito e objeto e restaura a unidade entre o homem e o mundo. Compreender isto implica em entender que homem e mundo não são coisas separadas, portanto, não é uma questão de interação homem-meio.

– ser-além-do-mundo –

Significa as múltiplas possibilidades que o homem tem de transcender o mundo em que habita e entrar num novo mundo. Desejo e poder de realizar todas as possibilidades de seu ser.

Quando nega ou restringe as amplas possibilidades de sua existência, ou quando se deixa dominar pelo outros ou pelo ambiente, está vivendo uma existência inautêntica.

– campo existencial –

É a condição na qual o homem é lançado no mundo. Se ele nasceu uma mulher, seu campo existencial não será o mesmo que o de um homem. O fato de ser mulher define em parte, as possibilidades de sua existência. Se ela rejeitar essas possibilidades, e tentar, ser um homem, então ela terá escolhido um modo inautêntico de ser-no-mundo. A punição pela inautenticidade é o sentimento de culpa. Uma existência autêntica é projetada pelo reconhecimento de seu campo existencial, uma existência inautêntica é o resultado do afastamento do seu próprio campo existencial.

Apesar das limitações decorrentes do ser lançado no mundo num determinado lugar, são muitas as possibilidades de escolha.

– o modelo-de-mundo –

Determina como a pessoa  reagirá em situações especificas e que tipos de traços de caráter e sintomas ela desenvolverá. Este modelo imprime uma marca em tudo que a pessoa faz.

Um exemplo de modelo é a necessidade de continuidade, se a pessoa percebe uma ruptura, possível separação, pode trazer ansiedade por demonstrar a perda de seu mundo. Quando o modelo-de-mundo é dominado por poucas categorias, a ameaça é mais iminente do que quando ele é variado.

– características existenciais –

Inerentes a toda existência humana: espacialidade, temporalidade, corporalidade, existência num mundo compartilhado, estado de animo ou sintonia.

– dinâmica da existência –

O homem, se quiser, pode transcender tanto seu ambiente como seu corpo físico.

A liberdade para escolher não assegura que as escolhas sejam sábias. Pode escolher viver autenticamente ou inautenticamente, não há menos liberdade para uma escolha do que para outra, embora as conseqüências sejam radicalmente diferentes.

O homem pode afinal transcender os ferimentos da infância e as ofensas posteriores à sua existência – ele pode transforma-se de uma pessoa existencialmente doente em uma pessoa sã.

Uma coisa que as pessoas nunca podem transcender é a sua culpa. A culpa é uma característica fundamental do ser-no-mundo. “A culpa existencial do homem consiste no seu fracasso em cumprir a exigência de realizar todas as suas possibilidades” (Boss, 1963, p.270).

– desenvolvimento da existência –

A existência nunca é estática, está em processo de tornar-se alguma coisa nova, de transcender-se a si mesma. O objetivo é tornar-se completamente humano, para realizar todas as possibilidades do ser-no-mundo. Naturalmente, este é um projeto sem fim e sem esperança porque a escolha de uma possibilidade sempre significa a rejeição de todas as outras possibilidades.

Ser-para-a-morte – o fim inevitável do ser-no-mundo confere ao homem a responsabilidade de tirar o máximo de cada momento de sua existência e de realizar sua existência.

 

AS IDÉIAS DIRETRIZES DA FILOSOFIA EXISTENCIAL


Liberdade, responsabilidade e angústia

O homem é um ser livre; livre apesar de todos os determinismos que o condicionam, limitam e programam. Pode renunciar a sua liberdade, tornar-se escravo, aliernar-se, mas ainda assim será uma opção sua.

O existencialismo é uma filosofia da liberdade. Sustenta que o homem é ontologicamente livre, por sermos livres, somos igualmente responsáveis. Sem liberdade de decisão e de escolha não seríamos responsáveis. Isso não significa negar a importância dos determinismos que, nas diversas esferas, afetam os homens. Justamente perante estes determinismos é que tem sentido a liberdade. Quando afirmamos que somos livres, estamos afirmando que sempre temos alguma possibilidade de escolha, uma margem de opção. Podemos nos submeter passivamente a estes determinismos; é o que faz muita gente, mas essa sujeição é também uma forma de escolha.

Somos livres e responsáveis – desse postulado deriva a ênfase colocada nessa abordagem da responsabilidade do individuo, tanto nas diretrizes que orientam sua vida quanto nas ações que concretizam seu projeto vital. Você pode fazer o que quiser, desde que assuma o que fizer, sabendo que  toda ação tem suas conseqüências e implica algum fator ético. Não alegue depois mera ignorância, ingenuidade ou inocência. Livres e responsáveis, sabendo que precisamos inventar nossa vida, sem que nada fique consolidado definitivamente, pois o passado não é uma garantia que nos assegure um presente – e menos ainda um futuro -, a ansiedade e a angustia surgem de maneira inevitável. Mas não se pense que a angústia é uma vivencia puramente negativa, que nos leva apenas à tensão e ao desespero. Ela também nos alerta, acordando-nos para os riscos e desafios de situações que nos inquietam.

O que podemos aplicar algo desta teoria na doença.

Psicologicamente, adoecer implica sentir-se preso, sufocado por conflitos, impulsos e afetos, implica um sentimento de perda da liberdade pessoal. Assim, é possível notar a perda liberdade nos cinco quadros da psicopatologia clássica.

neurose – o individuo sente-se dominado por sentimentos negativos, oriundos de uma baixa auto-estima e de uma falta de autoconfiança, o que o leva a uma constante oscilação entre a depressão e a ansiedade. Preso a seus conflitos, tem sérias dificuldades para manter relacionamentos interpessoais saudáveis.

psicose – constrói um mundo dividido e fragmentário, alienado de um contato vital com a realidade, por não ter obtido um reconhecimento mínimo dos outros. Sem reconhecimento por parte do outro, o sujeito não se reconhece a si mesmo.

perversões sexuais – condiciona-se de tal maneira que depois não consegue apreender o todo implicado no relacionamento erótico, fixando apenas um aspecto predominante do objeto excitatório (fetiche), que se mantém como objeto excitatório e não como fonte de prazer psicofísico, que é o que nos introduz ao mútuo conhecimento. Fica preso a uma forma mutiladora de relacionamento.

psicopatia – o sujeito não se reconhece propriamente no outro, que é o que nos permite verdadeiramente sentir-nos humanos. Fica assim truncada sua liberdade, cujo movimento e sentido pleno é a realização do humano, compartilhada no reino dos homens.

oligofrenias – não consegue a autonomia suficiente que lhe permita o exercício mínimo da liberdade. Por um determinismo da natureza, fica impossibilitado de ser como os outros, normal nas áreas dos aprendizados e das responsabilidades básicas. Identificado como deficiente mental, é condenado ao ostracismo, à discriminação social e, na hipótese mais benigna, é condenado a permanecer sob proteção vigiada.

O psicopatológico implica uma alienação do relacionamento interpessoal, seja por subordinação do sujeito ao outro (nas neuroses), seja por não reconhecimento no outro (na psicopatia), seja por exclusão do outro (na psicose), seja por um relacionamento puramente parcial nas perversões sexuais (sadismo-masoquismo, voyeurismo,etc).

A prioridade da existência sobre a essência

Tendência de ver o homem determinado por uma suposta essência que direciona sua conduta. Tendem a ver nos traços caracteriais de uma pessoa programas que definem  de uma maneira irrevogável uma personalidade; ou atribuem a um traço (como a inteligência ou uma notória sensibilidade artística) uma disposição determinante. Vêem esses traços como essências que se impõem ao sujeito. Na tese existencialista os traços são meras potencialidades; só a existência mostrará a vigência e efetividade de uma qualidade ou de um traço. Preconceitos, estereótipos, imagens mitificadas – tão comuns no meio social – são visões essencialistas que não qualificam necessariamente os indivíduos visados por estas representações, mas que pretendem ser uma espécie de diagnóstico definitivo de um tipo, no qual estaria encaixado o individuo.

Outorgar prioridade à essência sobre a existência, como se vê, é pensar que estamos determinados, seja pela natureza (em especial pelos genes) e pelo contexto sociocultural, seja por traços de caráter e ainda pelos misteriosos desígnios de um destino. Seríamos bons ou maus por natureza.

Mas cuidado: o existencialismo não nega as essências como determinações formais, estruturais ou naturais; elas constituem o dado ou recebido na constituição humana. Só que vale sempre a observação de Sartre: não importa o que me foi dado, o importante é o que eu faço com o que recebi.

O homem é um ser de possibilidades

Necessidade e possibilidade – o homem é um ser de necessidades, mas também de possibilidades. Costuma-se acentuar a importância da necessidade como um fator que compele o individuo na procura do objeto que satisfaça uma carência biológica ou motive sua realização psíquica e existencial. Mas o homem não é meramente movido por carências e desejos; é um ser aberto ao mundo, aberto ao apelo e ás suas possibilidades. Por estar aberto, não está inteiramente determinado e já feito de uma vez.

O homem é um ser temporal e finito

É um ser temporal e temporalizante, isto é, finito e ciente de sua finitude; tudo o que faz e lhe acontece revela sua finitude – ser-para-a-morte.

O homem como um ser-no-mundo

Homem e mundo invocam-se mutuamente – um não existe sem o outro. Dizer que o homem é um ser-no-mundo implica afirmar esta indiscutível solidariedade. Isso significa que o mundo é uma realidade puramente humana. O individuo está inserido completamente nessa realidade. O conceito de mundo não é sinônimo de natureza nem de espaço físico. O animal vive inserido na natureza. O homem habita uma realidade peculiar chamada mundo humano. Esta mundanidade emana da intencionalidade do homem, o que significa que a consciência está sempre direcionada para objetos que estão aí fora no mundo. Sempre somos conscientes de algo: de uma coisa, de um mal-estar na perna, de uma lembrança, de um sentimento em relação a um amigo. Tudo o que nos acontece subjetivamente se relaciona com algo que está aí, no mundo.

O cuidado e a preocupação são inerentes à existência

Existir significa estar aí, jogando no mundo, em estado de derrelição, aberto às potencialidades, apreendendo-se numa determinada situação, juntamente com outros seres intramundanos. Existir implica coexistir. Jogado no mundo, aberto a suas possibilidades, o homem precisa cuidar-se. O cuidado é inerente à existência. O cuidado implica estar atento ao que acontece, dando conta de nossa vida. Implica responsabilidade e preocupação.

Toda motivação, todo desejo, todo projeto, emana ou se sustenta no cuidado. É meu sendo de cuidado que dirime o conflito entre dois desejos; entre o desejo de comer os manjares de uma boa mesa e minha vontade de permanecer esbelto, posso escolher o que julgo melhor.

Com isso podemos entender que o cuidado me ajuda ou me orienta em minhas escolhas?

Como surgiu a Psicoterapia Existencial?

A Psicoterapia Existencial surgiu espontânea e simultaneamente, no início deste século, em diversos países da Europa: Alemanha, França, Suíça e Holanda como tentativa de superar uma certa insatisfação com relação à Psicanálise, tanto com os seus resultados clínicos quanto com a sua formulação teórica e, também, para procurar preencher algumas lacunas sobre a compreensão humana deixadas por ela. Entretanto não deve ser considerada como uma das correntes derivadas da Psicanálise, tais como as de Adler, Jung e muitos outros, pois dela muito se difere: com relação ao método Fenomenológico no lugar do Cartesiano e a técnica da Maiêutica no lugar da Interpretação, ou seja, o perguntar no lugar do explicar.

Como se caracteriza a Psicoterapia Existencial?

Centra-se no encontro entre o Psicólogo e o Cliente. Utiliza como método a Fenomenologia e, como técnica, o diálogo socrático. Busca na auto-expressão autêntica o compromisso do indivíduo consigo mesmo, o sentimento de responsabilidade pela própria existência e a liberdade para o indivíduo fazer as suas próprias escolhas, descobrindo quem ele de fato é e construindo quem ele quer ser.

Quais os seus conceitos principais?

Angústia, solidão, crises existenciais, centramento, liberdade, escolha, risco, compromisso, encontro, responsabilidade, autenticidade, diferenças individuais e projetos de vida.

A Psicologia Existencial-Humanista combina aspectos do existencialismo e do humanismo de um modo que reconhece a contribuição de ambas abordagens, ao mesmo tempo que procura evitar algumas de suas limitações e até divergências.

Grandes nomes desta ‘Força’ são Carl Rogers, A. Maslow, C.G. Jung, F. Perls Laing, Basaglia D. Cooper. Uns se dedicando a ambas abordagens, outros a só uma das duas. Psicólogos existencialistas por excelência seria: Erwin Strauss e V. E. von Gebsatell na Alemanha, Eugene Minkowsky na França, Ludwig Binswanger, A. Storch, Medard Boss, G. Bally, Roland Kuhn e outros na Suíça e, ainda, J.H.Van Dem Berg, F. J. Buytendijk e outros na Holanda.

 

 

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