Projeto de Iniciação Científica – Caracterização da Clientela da Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto

20/08/2010 at 23:44 (Clínica)

PIC09253

Caracterização da Clientela da Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto

Roberta Cristina de Sousa C. Silva

Ms. Márcio Luppi

Introdução

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que o curso de Psicologia da Faculdade onde a Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto está inserida, é o único nesta cidade e conseqüentemente, esta clínica também traz a mesma especificidade, ou seja, de ser a primeira nesse município. E, assim, tem-se uma história a ser desenvolvida e caracterizada, mostrando a relevância deste curso com os seus benefícios para a comunidade em questão. Sendo que o aspecto histórico da clínica é abordado em outro projeto da autora, limitando-se neste trabalho, a abordar apenas a caracterização da clientela da referida clínica.

No entanto, a relevância deste tema vai além, encontra respaldo no fato de que as Clínicas-Escola têm sido objeto de diversos estudos recentes, que focalizam desde a caracterização da clientela, a descrição dos serviços oferecidos, a importância da qualidade no atendimento, dificuldades e desafios enfrentados pela questão institucional até mesmo propostas de melhores intervenções.

É importante citar que existem outros autores que também têm se dedicado ao mesmo tema, como é o caso de Ancona-Lopez (1995), Macedo (1984) e Silvares (1993) que estudaram a temática de Clínica-escola psicológica. Em seus estudos eles se preocuparam com aspectos que englobam desde os problemas de atuação do psicólogo clínico inserido em uma instituição que atende à comunidade, a caracterização da clientela, os tipos de serviços prestados, os problemas evidenciados nesses atendimentos, o questionamento dos atendimentos tradicionais até propostas inovadoras de atendimento.

Nas leituras e estudos sobre o tema deste projeto percebe-se o quanto Edwiges Silvares também contribuiu e, ainda continua a contribuir para o desenvolvimento dessa temática, sendo que, a partir de seus estudos também surgiram novos trabalhos, o que torna impossível falar de clínica-escola de psicologia sem citar Silvares. E é essa autora que em 2006, refletindo sobre seu trabalho de 1989, vai explicar que o levantamento das características de uma dada população, a quem os serviços de atendimento de certa instituição se destinam, é o primeiro passo para tornar esse mesmo atendimento mais eficiente e, consequentemente, ser considerado satisfatório pela própria clientela, assim como, pela instituição responsável pelo atendimento.

Com isso Silvares (2006) mostra que “é a partir do conhecimento sobre quem precisa e do que é que se pode determinar o quando, o onde e, especialmente, o como atender os que procuram ajuda”. Mais ainda, ela aponta para o mais antigo trabalho brasileiro de caracterização do atendimento público ambulatorial de Psicologia, que é o de Schoenfeldt e Longhin, de 1959. Sendo que este tipo de trabalho ganha maior atenção somente a partir do estudo de Lopes (1983). Portanto, são mais de vinte anos de 1959 a 1983, sem que outros trabalhos surgissem nessa área. Entretanto, a partir dos estudos de Lopes (1983) foram realizados, em média, quase dois estudos, da mesma natureza, por ano, o que é muito importante para o progresso desses serviços psicológicos, oferecendo grande contribuição no cenário científico acadêmico, bem como, no social.

Fica assim, bem evidenciada, a contribuição deste trabalho, no sentido de unir-se a outros pesquisadores nessa luta por refletir a prática e a formação do psicólogo, bem como, a reflexão de melhores condições de atendimento psicológico a comunidade que depende dos serviços oferecidos pela Psicologia aplicada dentro das universidades. Entendendo tamanha importância, este projeto objetiva conhecer quem é essa clientela que busca o atendimento psicológico na Clínica-escola de Psicologia 27 de Agosto, quais necessidades e queixas são apresentadas por ela.

Tomando como exemplo e orientação alguns trabalhos já realizados nesse sentido, pode-se citar a pesquisa realizada por Peres, Santos e Coelho (2004) sobre o Perfil da clientela de um programa de pronto-atendimento psicológico a estudantes universitários; bem como o de Romaro e Capitão (2003) que também estudaram a Caracterização da clientela da clínica-escola de psicologia da Universidade São Francisco e ainda, a pesquisa de Campezatto e Nunes (2007) que analisaram o Atendimento em clínicas-escola de psicologia da região metropolitana de Porto Alegre. Sabe-se, porém, que muito tem sido realizado nesse sentido, além da caracterização e perfil da clientela desses serviços psicológicos, também se tem estudado os aspectos qualitativos como importância, satisfação da clientela, objetivo acadêmico do serviço e propostas de melhorias nos atendimentos à comunidade.

Percebe-se, com isso, que a atual pesquisa traz a sua especificidade de se estudar, pesquisar e descrever a clientela de uma clínica-escola que é recente no cenário das faculdades de psicologia, mas que muito deseja contribuir nesse contexto de crescimento e desenvolvimento de melhores oportunidades de atendimentos psicológicos.

Importância da Clínica-Escola

Para explicar a importância da clínica-escola, vale citar Hersberg (1996), que por sua vez, mostra por que as clínicas psicológicas têm sido chamadas de “Clínicas-psicológicas-escola”, ela explica que tal denominação de Clínica-escola é devida ao fato de que nela os alunos de psicologia fazem grande parte de sua formação clínica, ou seja, a maior parte dos profissionais atuantes nesta são estagiários em processo de treinamento e aprendizagem prática. Portanto, pode-se, de antemão, explicar que ela tem dois tipos de público-alvo: estagiários e clientes. Aos estagiários a clínica traz o benefício do funcionamento de campo de estágio curricular obrigatório, treinando-os na prática profissionalizante; e quanto aos clientes, presta serviços à população em geral, principalmente, de baixa renda, sendo o conhecimento e caracterização desta clientela, o alvo deste projeto.

Löhr (2004) da Universidade Federal do Paraná explica que, além do papel na formação acadêmica dos futuros profissionais da psicologia, a Clínica–escola constitui um espaço que pode promover o resgate da cidadania. Ao oferecer esses serviços psicológicos para uma população carente, sem condições financeiras de manutenção de tais serviços, contribui-se para que estas pessoas se percebam como cidadãos ativos e com potencial muito grande, nos contextos em que estão inseridos. Outro aspecto, que a clínica-escola promove, é a possibilidade de desenvolver novas metodologias ou avaliar a qualidade de programas a serem ofertados para a comunidade, ou seja, constituir-se também em um laboratório de avaliação de qualidade e de ampliação do manejo psicológico, atingindo assim uma perspectiva de pesquisa aplicada na psicologia. Löhr (2004) também ressalta que se pode agregar o papel da clínica-escola no desenvolvimento de um compromisso da psicologia com ações preventivas, à intervenção remediativa, desenvolvimento de novas estratégias de ação, desenvolvimento de habilidades para o exercício profissional, contribuindo com a qualidade de vida de toda a população.

Assim, pode-se dizer que os objetivos básicos de uma clínica-escola são: integrar a clínica-escola ao compromisso social/filantrópico da faculdade, beneficiando a comunidade carente com atendimentos pertinentes; viabilizar a integração da teoria e da prática na formação técnico/acadêmica do aluno do curso de psicologia e colaborar para a formação mais preparada e consciente de profissionais da área. E os serviços que oferecem podem ser listados da seguinte forma: Psicodiagnóstico infantil e adulto, Orientação vocacional e profissional, Psicoterapia individual infantil, adolescente e adulto; Psicoterapia de grupos; Psicoterapia breve para enfermos crônicos; Atendimento a casais e famílias; Atendimento em grupo com idosos.

Para caracterizar uma Clínica-Escola de Psicologia é preciso entender sua importância e obrigatoriedade dentro do curso de psicologia, partindo do conhecimento de sua história e formação. E assim, vale dizer que, somente estudar Psicologia Clínica não ensina a ser clínico: ser clínico se aprende sendo, ou seja, a ênfase do estudo teórico nesta área não refuta a idéia de que a clínica se aprende no contato com o paciente. Esta é a importância crucial das clínicas-escola que, por lei, devem fazer parte dos serviços de Psicologia aplicada ligados aos cursos.

Quando regulamentada a profissão do psicólogo pela Lei n. 4.119, em 27 de agosto de 1962, foi referido que cada curso de Psicologia deveria organizar serviços de atendimento para que os alunos, sob supervisão docente, praticassem o que lhes foi ensinado nas disciplinas da graduação (Brasil, 1962). Esses serviços, conhecidos como clínicas-escola passaram a constituir tanto locais onde os alunos da graduação pudessem exercer os estágios e aplicar o que aprenderam nas disciplinas, como oferta, feita pela universidade, de prestação de serviços de atendimento psicológico, gratuito ou semigratuito, à comunidade (Güntert et al., 2000), citado por Campezatto e Nunes, 2007. Desta forma, a clínica-escola nasce embasada em dois objetivos específicos: formação do psicólogo (aperfeiçoamento profissional) e uma atenção básica ao social, à comunidade.

Portanto, as Clínicas-Escola de Psicologia têm como finalidade básica possibilitar o treinamento de alunos mediante a aplicação dos conhecimentos teóricos adquiridos em sala de aula, o que pode contribuir para a formação de profissionais adequadamente habilitados e capazes de expandir as práticas psicológicas em consonância com as novas realidades e demandas sociais, políticas e culturais da atualidade. Além disso, as Clínicas-Escola também exercem um papel social de extrema importância, uma vez que oferecem à população economicamente desfavorecida uma possibilidade de acesso a serviços psicológicos gratuitos ou de baixo custo financeiro (Herzberg, 1996 citado por Peres, Santos e Coelho, 2004).

Ainda, para uma melhor compreensão do conceito de clínica-escola, é possível falar da complexidade de sua rotina, envolvendo diversos segmentos e atividades diferentes para servir a objetivos também diferentes, embora interdependentes. Práticas de disciplina, estágios supervisionados, os interesses e necessidades da população e a necessidade de disponibilizar e estruturar dados que possam ser utilizados para pesquisas coexistem e precisam ser atendidos no espaço dos serviços de Psicologia aplicada. Estas três vertentes – ensino, pesquisa e extensão – não são de fácil articulação numa proposta única de trabalho, muito embora façam parte de um só projeto que, de uma forma mais ampla, podemos dizer tratar-se do projeto de “universidade” – espaço no qual se pretende produzir, transmitir e aplicar conhecimentos. (Perfeito e Melo, 2000)

O atendimento aos usuários é realizado por alunos/estagiários do curso de graduação em psicologia, orientados e supervisionados por psicólogos – mestres e especialistas – credenciados junto ao CRP. Todos os serviços prestados na clínica-escola ficam sob a responsabilidade direta do psicólogo supervisor que deve verificar e acompanhar pessoalmente a capacitação técnica de seu aluno estagiário.

Objetivos

– Caracterizar a clientela atendida na Clínica-escola de Psicologia 27 de Agosto, considerando a faixa etária, ocupação, gênero, escolaridade, estado civil, situação econômica e motivo de consulta.

– Conhecer quem é a comunidade que procura os serviços psicológicos e quais as principais demandas.

– Coletar dados por meio de análise de prontuários, aplicação de questionário de avaliação da qualidade dos atendimentos.

– Preservar o cliente em sua história e identificação, mantendo o sigilo profissional.

– Pensar a construção do saber em psicologia, a formação do psicólogo e a contribuição social destes à comunidade.

– Diante da demanda percebida, sugerir melhores estratégias de atendimento, supervisão, triagem, e outros aspectos que se mostrarem necessários.

– Integrar este artigo como capitulo de um livro desta Clinica-Escola especifica e, assim, servir de auxílio acadêmico aos estagiários da mesma.

Metodologia

O tipo de pesquisa utilizado para o presente trabalho é a pesquisa participante, por corresponder as necessidades de uma população previamente selecionada e, também porque, a pesquisa participante oferece um leque de abertura no que tange a observação, pois a realidade não é estática, porque o fenômeno está em constante movimento de um eterno vir a ser.  Tanto observador quanto o observado desempenham um papel ativo numa relação dialética como acontece nos fenômenos histórico-sociais. Como bem coloca DEMO (2004), a relação que ocorre entre pesquisador e pesquisado alcançam uma identificação, quando sujeito e objeto são também sociais, o que permite quebrar a idéia de objeto como pertencente apenas das ciências naturais.

Confirmando as colocações anteriores, Gonzalez Rey (1999) propõe a Epistemologia Qualitativa colocando a relevância da participação dos sujeitos no processo de pesquisa porque a produção do conhecimento ocorre nos contextos interativos entre pesquisador e pesquisado.

Quando se faz à análise dos dados obtidos na entrevista, observação e avaliação, a pesquisa apresenta um caráter qualitativo. Para Rey (2005), a pesquisa qualitativa envolve a absorção do pesquisador no campo de pesquisa, considerando-se como parte do “cenário social em que tem lugar o fenômeno estudado em todo o conjunto de elementos que o constitui, e que, por sua vez, está constituído nele”.

Esclarecendo que, o tipo de pesquisa escolhido como sendo participante foi devido ao fato de que a pesquisadora faz parte do corpo de funcionários dessa clínica, apresentando-se como secretária e estagiária da mesma e, por isso, tem convivência diária com a clientela atendida e com as questões psicológicas envolvidas (teóricas e práticas).

População / Amostragem e/ou Instituição participante:

Tem-se como participante dessa pesquisa, a Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto, parte integrativa do Curso de Psicologia, localizada ou inserida em uma certa Instituição de Ensino Superior. Especificamente, a população participante será a clientela desta clínica, portanto, uma amostra de 634 usuários ou pacientes.

Atualmente essa Instituição aguarda processo de inauguração para total abertura à comunidade. No entanto, já deu inicio a algumas atividades em caráter de estágio básico supervisionado no primeiro semestre de 2008, com atendimento em nível de avaliações não interventivas, e, em 2009, dando continuidade a essas atividades, também foram acrescentados os atendimentos com intervenção como a psicoterapia.

Sua equipe é composta por: 01 Supervisor Geral e Coordenador da Clinica; 1 Professor Assistente; 12 Professores supervisores; 01 Recepcionista. Funcionando de segunda à sexta-feira de 13h00 às 22h00 e aos sábados de 08h00 às 12h00.

Para a comunidade ser atendida deve agendar uma triagem pelo telefone ou pessoalmente e aguardar disponibilidade de vagas. No momento a clínica conta com estagiários-plantonistas que diariamente realizam as triagens, e desta forma, pode atender a comunidade para essa primeira entrevista (triagem) mesmo sem agendamento, caso tenha plantonistas disponíveis no horário.

A Clínica-Escola 27 de Agosto atende a todos interessados, desde a comunidade interna (os alunos e colaboradores da Faculdade) até a comunidade externa (familiares desses e outros). Atendendo crianças, adolescentes, adultos e idosos, homens e mulheres, sem acepção de pessoas. Entretanto, sendo limitados pela situação de aprendizado não é permitido atendimentos de casos psiquiátricos agudos e casos de Síndrome de Down e Retardo Mental grave.

Nesse primeiro semestre de 2009, estão sendo atendidos 185 pacientes e já foram triados de janeiro a junho, 340 pacientes, sendo que no ano de 2008, foram 294 paciente triados. Os atendimentos estão distribuídos em modalidades como: Psicoterapia Breve Adulto e Infantil, Psicodiagnóstico Adulto e Infantil, Psicoterapia de Grupo Infantil e Psicoterapia Suportiva (nomeada no contexto desta instituição como Clínico-Hospitalar) e Aconselhamento Psicológico. Dentro das perspectivas de cada abordagem, sendo elas: Psicanálise, Sócio-Histórica, Cognitivo Comportamental, Comportamental e Gestalt-Terapia/Fenomenologia. Sendo, aproximadamente, 170 estagiários distribuídos entre a quinta, sétima e nona séries, realizando esses atendimentos supervisionados pelos seus respectivos professores.

Instrumentos de Coleta de Dados:

São utilizados recursos como análise documental (prontuários dos pacientes atendidos), sendo que esta vem respaldada pelo termo de consentimento, onde o paciente também autoriza pesquisa referente aos dados coletados, desde que haja manutenção do sigilo de sua história e identificação; observam-se nesta análise, variáveis como: faixa etária, sexo, estado civil, escolaridade, ocupação, queixa ou motivo da consulta, renda familiar. Entretanto, faz-se necessário explicar que, no projeto inicial foi acrescentada a variável de local de moradia (bairros da cidade), porém, no desenvolvimento desse trabalho, verificou-se a irrelevância desses dados, e assim, acreditando ser o melhor, resolveu-se retirar os dados coletados referentes ao local de moradia.

Além da análise dos prontuários faz-se uso também de outro recurso como o Questionário de Avaliação do Atendimento da Clínica, através de ficha preenchida pelo usuário dos serviços no último dia de atendimento. Para responder esse questionário, o paciente é orientado pelo estagiário que realizou seu atendimento psicológico ao término da entrevista devolutiva, deixando-o sozinho no consultório para responder, após a orientação. E assim, o paciente terminando de preencher a ficha a entrega na secretaria da clínica-escola; lembrando que, em casos de crianças, são os responsáveis (cuidadores) que respondem a mesma.

Quanto aos materiais utilizados são: prontuários de triagem, ficha de avaliação, lápis, caneta, papel chamex, computador, impressora, uso de tabelas para registrar os dados coletados, livros para pesquisa.

A pesquisa é realizada no final de cada semestre, reunindo-se todos os prontuários dos atendimentos daquele semestre e coletando-se os dados referentes a esse período, já registrando os resultados em tabelas para uma melhor organização e compreensão. O questionário (ficha de avaliação) é entregue ao estagiário no dia da entrevista devolutiva, que o cliente, ao término desta, preenche e entrega ao estagiário responsável pelo seu atendimento e este repassa à secretaria da clínica, sendo arquivado junto aos demais documentos desse cliente.

Por fim, vale esclarecer que todos os documentos como prontuário e ficha de avaliação – utilizados na pesquisa – estão arquivados na clínica-escola em questão e são mantidos trancados e com acesso restrito aos profissionais que realizam o atendimento, supervisor da clínica e à secretária da mesma que realiza a presente pesquisa por meio de autorização nos termos de consentimento.

Análise dos dados:

González Rey (1997, 1999 apud Silva e Cupolilo, p. 362, 2005) traz uma proposta de Epistemologia Qualitativa, que por sua vez, também é a proposta dessa pesquisa. E, sendo assim, percebe-se a necessidade de compreensão dos princípios da Epistemologia Qualitativa que repercutem no nível metodológico, a partir de González Rey. Para esse teórico, o conhecimento é constituído na relação sujeito-objeto, onde objeto e sujeito são subjetividades envolvidas ativamente na construção desse conhecimento e, por isso, o processo de produção do conhecimento tem um caráter interativo porque o enfoque está nos atores que atuam nesse processo (pesquisado e pesquisador) e não no método. Entendendo ainda que, a importância de ser Qualitativa está na construção de novas significações para as necessidades daquilo que se pretende estudar no momento da pesquisa, dando um caráter de legitimidade.

Desenvolvimento

Para desenvolver esse projeto foi criado um cadastro digital (excel) para cada ano de estudo (2008 e 2009), no qual foram digitalizados os dados referentes a pesquisa a partir de uma análise dos prontuários dos pacientes. Esse cadastro era preenchido ao término de cada período semestral, quando as atividades acadêmicas e clínicas eram encerradas. Para ter acesso aos dados, primeiramente, foi anexado junto à ficha de triagem (prontuário) um termo de consentimento, onde o usuário autorizava possíveis pesquisas com os seus dados desde que fosse mantido o sigilo e preservado a identidade e história do mesmo.

Após digitalização dos dados, estes foram divididos em suas categorias e ano assim como é apresentado nas tabelas abaixo e, a partir destas foi possível analisar a diferença entre o ano de 2008 e o primeiro semestre de 2009 e também a relação entre os próprios dados. Além dos dados do prontuário, foi realizada uma avaliação dos atendimentos da clínica por parte da clientela da seguinte forma: foi entregue ao estagiário a ficha de avaliação no inicio do período letivo, orientando-o a entregá-la ao paciente no último dia de atendimento com o mesmo, de maneira que apenas pedisse que avaliasse todos os atendimentos da clínica, mas não ficasse com ele na sala para não inibir e influenciar a resposta, posteriormente, quando terminasse, o paciente entregaria na recepção da clínica. No entanto, essa ferramenta não foi muito bem utilizada porque os estagiários esqueciam de entregá-la ao paciente e, assim, foi possível reunir uma pequena amostra.

Lembrando que, quando se tratava de criança ou adolescente, tanto o termo de consentimento como a ficha de avaliação eram assinadas pelos responsáveis legais.

Como a pesquisadora é estagiária do curso de psicologia e secretária da clínica e, o seu orientador, além de coordenador do curso é o supervisor da mesma, esta pesquisa mostrou-se bastante viável e funcional para a própria instituição, sendo que a partir desta, é possível pensar melhor a estruturação da clínica e a qualidade de seu atendimento aos alunos e à comunidade.

Resultados

É importante pensar nesse momento que, na análise dos dados, existe o auxilio de dispositivos estatísticos, como a distribuição de freqüências agrupadas, gráficos e média aritmética, onde é possível detectar e descrever padrões ou tendências em distribuições de escores que não seria percebido naturalmente (Levin e Fox, 2004). Entretanto, neste projeto, não foi possível o uso de gráficos, mas sim, de tabelas com as freqüências dos resultados facilitando a análise; e nem o uso da moda ou da média aritmética em virtude da quantidade de dados diversificados, impossibilitando fechá-los em uma única moda, assim como, não foi possível limitar uma média acreditando também ser inviável achar um ponto de equilíbrio na distribuição dos dados. Desta forma, os dados foram apenas coletados e organizados em suas categorias para uma maior compreensão de como a clientela da clínica é caracterizada.

Mesmo assim, acredita-se que, no presente contexto, aplica-se a estatística, tendo em vista que segundo Levin e Fox (2004), a estatística entraria como “um conjunto de técnicas para a redução de dados quantitativos (isto é, uma série de números) a um pequeno número de termos descritivos mais convenientes e facilmente transmissíveis” (Levin e Fox, p. 15, 2004).

A coleta de dados é o começo no que diz respeito à análise estatística. Ela fornece o material bruto que os pesquisadores utilizam para analisar os dados, obter resultados e testar hipóteses sobre a natureza da realidade social. Desta forma, o pesquisador procura transformar dados brutos em um conjunto significativo e organizado de medidas que podem ser usadas para testar hipóteses, onde o primeiro passo é construir uma distribuição de freqüências em forma de tabela (Levin e Fox, 2004). Sendo este, o nosso passo inicial.

Nas Tabelas 1 e 2 pode ser observada a caracterização da clientela da clínica-escola de psicologia 27 de Agosto em relação ao sexo (gênero masculino e feminino) no ano de 2008 e 2009/1 (primeiro semestre). Sendo que, neste um ano de meio de atendimento, percebe-se que as mulheres procuram mais os serviços psicológicos do que os homens, constituindo uma clientela mais feminina. No entanto, vale ressaltar que os homens também têm sua contribuição nessa caracterização da clínica porque constitui 40% da mesma, demonstrando que não há uma diferença muito elevada entre os gêneros.

Tabela 1 – Caracterização da Clientela quanto ao Sexo/2008
Sexo Freqüência
Feminino 160
Masculino 107
Não consta 27
Tabela 2 – Caracterização da Clientela quanto ao Sexo – 2009/1
Sexo Freqüência
Feminino 218
Masculino 120
Não consta 2

Nas tabelas 3 e 4 caracteriza-se a clientela de acordo com o seu estado civil e, aqui é possível observar que, no ano de 2008, 41% dos usuários dos serviços da clínica eram solteiros e 14% casados, sendo esse número alterado no primeiro semestre de 2009, onde os solteiros contaram 37% e os casados 24%, diminuindo a freqüência dos solteiros e aumentando a dos casados. Podendo ser este, um dado que leve a uma nova pesquisa para verificar a relevância desta alteração, bem como, o motivo e contexto da mesma. Ressaltando que, em ambos os períodos, permaneceram 30% de crianças e com baixa relevância para a caracterização da clientela, os demais dados, como os estados civis de separado, viúvo e união estável.

Tabela 3 – Caracterização da Clientela quanto ao Estado Civil/2008
Estado Civil Freqüência
Casado 41
Solteiro (acima de 15 anos) 123
Separado 8
União Estável 1
Viúvo 5
Criança (até os 14 anos) 87
Não consta 29
Tabela 4 – Caracterização da Clientela quanto ao Estado Civil – 2009/1
Estado Civil Freqüência
Casado 80
Solteiro (acima de 15 anos) 123
Separado 8
União Estável 6
Viúvo 3
Criança (até os 14 anos) 104
Não consta 11

Nas tabelas 5 e 6 são analisadas as ocupações desses usuários, demonstrando que a clientela da clínica-escola pesquisada é caracterizada, predominantemente, como estudante. Sendo compreensivo o resultado a partir de uma análise da divulgação desses serviços oferecidos pela clínica, entendendo que a pesquisadora faz parte do corpo de funcionários desta clínica, é possível ter acesso às essas informações. A divulgação teve inicio na própria faculdade e, posteriormente, em alguns colégios da cidade. Também torna-se compreensivo se for observado que as crianças e os adolescentes compõem, praticamente, 50% do grupo total dos usuários dos serviços da clínica e, desta forma, confirma o escore predominante de estudante visto que os mesmos estão em idade escolar.

Ainda é preciso acrescentar, a partir dos dados observados nas tabelas 5 e 6 que, existe uma pequena parcela de donas de casa (“do lar”) se destacando entre as demais ocupações, demonstrando com isso que a clientela da Clínica-escola de Psicologia 27 de Agosto é composta, em sua maioria, por estudantes e donas de casa.

Tabela 5 – Caracterização da Clientela quanto à Ocupação/2008
Ocupação Freqüência
Aposentada 7
Assessor 4
Aux. Administrativo 8
Cabeleireira 4
Desempregado 5
Diarista 2
Do lar 15
Estudante 144
Professor 8
Secretária 5
Vendedora 6
Outros 20
Não consta 66
Tabela 6 – Caracterização da Clientela quanto à Ocupação – 2009/1
Ocupação Freqüência
Outros 22
Agente de saúde 3
Aposentado 6
Autônomo 10
Aux. Administrativo 8
Aux. Cozinha 2
Aux. Educação 2
Cabeleireira 8
Contador 2
Costureira 4
Cozinheira 5
Desempregado 6
Diarista 5
Do lar 25
Estudante 118
Mecânico 2
Motorista 2
Pedagogo 2
Professor 16
Secretária 4
Vendedor 10
Não Consta: 22

Analisando as demandas que levam a população a procurar os serviços psicológicos, percebe-se que há uma grande variedade delas, confirmando a diversidade humana e suas problemáticas singulares. Portanto, nas tabelas 7 e 8 são apresentadas as freqüências das queixas ou motivos de consulta e, aqui, vale dizer que, acreditou-se ser a melhor solução para apresentar tais resultados, deixá-los dispostos tal como estão no prontuário, valorizando a diversidade de demandas e entendendo que, desta maneira é possível conhecer melhor a comunidade atendida, tendo em vista que se vê claramente quais são as dificuldades que as conduzem ao tratamento.

Assim sendo, é possível apresentar os escores predominantes das demandas por atendimento psicológico: 22% procuram os serviços para Orientação Vocacional e Profissional (sendo esta porcentagem mais voltada para os adolescentes que, são os atendidos nessa modalidade), 14% a queixa é depressão, 8% conflito familiar (percebe-se também que algumas das queixas relacionadas nas tabelas são desencadeadas por conflitos familiares não resolvidos, constatando que essa demanda está latente em alguns motivos de consulta), 7% ansiedade e 5% autoconhecimento.

Tabela 7 – Caracterização da Clientela quanto à Queixa/2008
Queixa ou motivo de consulta Freqüência
Agressividade 5
Ansiedade 20
Autoconhecimento 15
Baixa auto-estima 6
Ciúme 3
Conflito Familiar 21
Conflito Sentimental/Afetivo 3
Conflito Sexual 6
Crise da adolescencia 2
Curiosidade 2
Depressão com ideação suicida 2
Depressão 39
Dificuldade de Aprendizagem 7
Dificuldade Escolar 5
Dificuldades de Atenção, Concentração, Memória 6
Elaboração de Luto 5
Enurese Noturna 4
Estresse 2
Hiperatividade 7
Medo 11
Nervosismo 7
OVP 60
Pânico 5
Possivel abuso sexual 3
Problemas de Relacionamento 3
Somatização 4
Suporte pós-acidente 3
Suspeita de TDAH 6
Tentativa de suicidio 6
Timidez 2
TOC 5
Transtorno Bipolar do Humor 2
Tabela 8 – Caracterização da Clientela quanto à Queixa – 2009/1
Queixa ou motivo de consulta Freqüência
Abuso sexual 1
Agressividade 13
Alcoolismo 3
Alucinação, delírio e paranóia 6
Ansiedade 39
Autismo 2
Baixa auto-estima 11
Ciúme 5
Conflito conjugal 7
Conflito emocional/afetivo 11
Conflito familiar 61
Conflito profissional 3
Conflito sexual 11
Déficit de atenção, concentração, cognição e desenvolvimento 11
Depressão 44
Dificuldade de aprendizagem 12
Dificuldade de relacionamento 25
Dificuldade escolar (comportamento) 11
Distúrbio Alimentar 5
Disturbios do sono 2
Elaboração de luto 12
Elaboração de separação 10
Enurese noturna 2
Epilepsia 2
Estresse 5
Fobia Social 4
Hiperatividade 6
Ideação homicida 1
Ideação suicida 7
Fobia 13
Nervosismo 11
OVP 16
Problemas auditivo, renais 3
Sindrome de Down 1
Sindrome de Pânico 6
Somatização 13
Suporte pós-acidente 2
Tentativa de suicidio 1
Timidez 14
TOC 2
Transtorno de comportamento 4
Transtorno do humor 6

As tabelas 9 e 10 caracterizam a clientela da clínica-escola quanto à escolaridade e, a partir dos dados coletados pode-se verificar que, prevalece uma clientela que está cursando ensino superior (uma média de 18% tanto em 2008 como 2009/1), sendo também compreensivo devido ao fato de que a clínica está inserida em uma faculdade, atendendo muitos de seus alunos e a divulgação maior dos serviços da clínica se deu na própria faculdade. No entanto, a clientela também é caracterizada como sendo uma média de 16% de crianças e adolescentes cursando a primeira fase do ensino fundamental (maternal, jardim, primeira a quarta séries primárias), o que confirma alguns dados anteriores. E ainda, tem-se uma média de 13% cursando a segunda fase do ensino fundamental (da quinta à nona série) e com o ensino médio completo.

Desta forma, pode-se afirmar que a clientela da clínica-escola de psicologia 27 de agosto é predominantemente, estudante, ou seja, em fase escolar e, com isso, pode-se levantar um questionamento da possibilidade da intelectualidade influenciar na acessibilidade aos serviços psicológicos. Valendo uma nova pesquisa para averiguar esse dado, tendo em vista que, pessoas com maior grau de instrução percebem com mais facilidade a necessidade de ajuda psicológica com menos preconceito (não sendo esta uma afirmação, mas uma possibilidade a ser investigada).

Tabela 9 – Caracterização da Clientela quanto à Escolaridade/2008
Escolaridade Freqüência
1ª fase do ensino fundamental (cursando) 48
2ª fase do ensino fundamental (cursando) 25
Ensino médio (cursando) 24
Ensino Fundamental completo 3
Ensino fundamental incompleto 18
Ensino médio completo 26
Ensino médio incompleto 30
Não alfabetizado 1
Não estuda 8
Superior incompleto 51
Superior 13
Não relatou 47
Tabela 10 – Caracterização da Clientela quanto à Escolaridade – 2009/1
Escolaridade Freqüência
1ª fase do ensino Fundamental (cursando) 57
2ª fase do ensino Fundamental (cursando) 49
Ensino Fundamental completo 13
Ensino Fundamental incompleto 15
Ensino Médio (cursando) 14
Ensino médio completo 58
Ensino médio incompleto 19
Superior 28
Superior incompleto 64
Pós-graduado 1
Não Alfabetizado 4
Não estuda 9
Não relatou 9

As tabelas 11 e 12 apresentam características referentes à faixa etária dos usuários dos serviços da clínica, mostrando que a comunidade atendida nesta clínica é bastante diversificada, compreendendo desde a criança até o idoso. No entanto, pode-se constatar que, as crianças representam o número mais significativo entre os demais, tendo em vista que o adulto (escore mais elevado) corresponde às idades de 19 a 59 anos, portanto mostra um período de 40 anos, enquanto que as crianças contam até 14 anos (o período de diferenciação foi menor). Se somar os resultados obtidos das crianças e dos adolescentes terá a confirmação de que estes correspondem 50% do grupo total da clínica, demonstrando que esta clínica é caracterizada por uma clientela infanto-juvenil, composta por usuários que têm entre 1 a 18 anos.

No entanto, é preciso dizer que esses resultados falam de uma clientela que recebeu atendimento de várias modalidades, mas que também inclui pessoas que ainda não receberam o atendimento psicológico propriamente dito, apenas passaram pelo processo de triagem e estão aguardando disponibilidade de vagas para serem atendidos. Assim, fica esclarecido que, os dados relatados aqui, são um misto de pacientes na espera, com o processo psicológico em andamento, outros com o atendimento concluído e, ainda, outros que desistiram antes mesmo de começar, mas que contam porque fizeram a triagem e constam no cadastro de pacientes da clinica.

Dito isso, pode-se explicar que, o resultado de uma predominância infanto-juvenil não significa que a maioria de atendimentos psicológicos nesta clínica seja voltado para crianças e adolescentes, mas que a maior demanda da mesma é deste público. Entretanto, a clínica-escola de psicologia 27 de agosto conta com um número reduzido de estagiários e professores-supervisores interessados e especializados em atendimentos infantis. Conseqüentemente, esse público aguarda por um período maior de tempo na fila de espera, o que não ocorre da mesma forma com os adolescentes, que conseguem atendimento mais rápido, devido ao fato de que os mesmos estagiários e professores-supervisores que acompanham os adultos, também o fazem com os adolescentes.

No entanto, nesta mesma tabela, percebe-se que há um número até relevante de usuários com renda familiar acima de R$5.000,00 (cinco mil reais), o que é explicado no fato de que a clínica-escola ainda não foi inaugurada oficialmente, portanto não foi realizada uma divulgação em nível de a cidade conhecer os serviços oferecidos pela mesma. Como, inicialmente, a divulgação foi realizada na própria faculdade onde a clínica está inserida, não houve uma repercussão desses serviços. Até porque nesse primeiro momento, pensou-se na necessidade acadêmica de formação dos alunos de psicologia, sendo que estes precisavam dar inicio a sua prática acadêmica.

Desta forma, acredita-se que, o fato de a clínica estar caminhando para o seu segundo ano de funcionamento e já conseguir atender uma maioria carente, confirma uma de suas principais características, que é o de atender uma população mais carente, favorecendo uma redução da imagem elitista do psicólogo e, tornando a psicologia mais acessível à comunidade.

Já é proposta desta clínica-escola que, a partir do próximo ano (2010) uma das formas de seleção de pacientes será por meio da renda familiar, onde é possível verificar a condição financeira/econômica dos mesmos, priorizando os atendimentos para aqueles que possuem uma dificuldade maior em acessar tais serviços. Entretanto, neste um ano e meio de funcionamento, isto ainda não foi realizado, porque a Clínica-escola de Psicologia 27 de Agosto apresentou condições de atender a demanda existente.

Tabela 13 – Caracterização da Clientela quanto à Renda Familiar – 2008 e 2009/1
Renda Freqüência
Menos de 1 (um) salário mínimo (R$465,00) 9
Entre um a dois salários mínimos 123
Entre R$1.000,00 a R$2.000,00 150
Entre R$2.200,00 a R$3.000,00 35
Entre R$3.100,00 a R$5.000,00 30
Acima de R$5.000,00 37

Agora, nas tabelas que seguem abaixo, são apresentados os resultados de como a clientela da Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto avaliou os serviços prestados, lembrando que, para essa análise foi observada apenas uma amostra de 57 avaliações, tendo em vista que, muitos alunos esqueceram de fazer a avaliação no dia da entrevista devolutiva, demonstrando com isso uma necessidade de correção desta ferramenta ou da forma como foi executada para uma próxima pesquisa.

Analisando, portanto, as tabelas 14, 15 e 16 é possível observar que a comunidade atendida, nesta clínica, se encontra satisfeita com os atendimentos realizados da secretaria, triagem e processo psicológico; inclusive, alguns usuários relataram na entrega desta ficha de avaliação (para a secretária da clínica – autora da pesquisa) que, acharam os atendimentos mais eficazes do que os que realizaram com outros psicólogos particulares, demonstrando com isso que, mesmo em fase inicial e de adaptação, a Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto foi bem avaliada por sua clientela como uma clínica que consegue atender a demanda da mesma, podendo até inferir que, atende com qualidade os seus usuários.

Observando a tabela 17, pode-se verificar que a comunidade atendida não aguardou por um longo período na fila de espera, mas ao contrário, foi rapidamente atendida, dentro de uma média de uma a duas semanas. No entanto, esses dados revelaram uma realidade parcial da clínica, talvez por ter sido uma amostra de apenas 57 avaliações. Sabendo que a pesquisadora em questão está inserida nesse contexto da clínica, acompanhando diariamente os prontuários em espera, ela percebe uma espera maior por parte das crianças, devido ao fato de que a clínica tem poucos supervisores especializados no atendimento infantil assim como, poucos estagiários com opção de estágio nessa modalidade, já que os alunos têm liberdade de escolherem as modalidades de estágio de seus interesses pessoais, não tendo nenhuma que seja obrigatória.

Contudo, esta não é a única justificativa dessa realidade, acredita-se que, a forma como é feita a seleção dos pacientes muito contribui para que haja uma espera maior (seis meses a um ano) por parte de alguns e, muito pequena (uma a duas semanas), por parte de outros. Inicialmente, esta clínica tinha como proposta realizar uma seleção pela ordem de inscrição, no entanto, na medida em que os supervisores juntos com os seus respectivos estagiários analisaram as fichas, perceberam uma dificuldade de horários compatíveis (do paciente com o aluno e, destes com o horário de funcionamento da clínica).

E, desta forma, acabaram por selecionar aqueles que ofereceram compatibilidade de horários e que são mais acessíveis, no sentido de agilidade ao atenderem ao telefone e agendarem mais rapidamente, tendo em vista que, a questão acadêmica obriga uma urgência no cumprimento da carga horária obrigatória de estágio e, sendo assim, o estagiário tenta o contato com um possível paciente, se não consegue falar com ele, passa a vez para um outro.

Acredita-se também que, todas essas questões são justificadas em virtude de a clínica estar em fase adaptativa de abertura e estruturação, sofrendo algumas dificuldades na solidificação do estabelecimento de normas para atendimento e funcionamento da mesma, assim como, do cumprimento dessas regras.

Portanto, diante desses esclarecimentos, pode-se concluir desses resultados da tabela 17 que, a amostra observada não correspondeu à realidade total da clínica, deixando alguns questionamentos que foram esclarecidos acima. Mostrando que há sim um período maior de espera para disponibilidade de vagas, mas que apesar disto, a clínica consegue atender sua demanda. É claro que esse processo pode ser agilizado para tornar os serviços psicológicos mais acessíveis e, aqui, já se vê apontada uma necessidade de melhoria na clínica, podendo pensar em formas de se obedecer a ordem e seqüência de inscrições dos usuários.

Tabela 14 – Avaliação da Clínica quanto à Satisfação no Atendimento da Secretaria – 2008 e 2009/1
Qualidade Freqüência
Ótimo 43
Muito Bom 5
Bom 7
Atencioso 1
Tabela 15 – Avaliação da Clínica quanto à Satisfação na Triagem – 2008 e 2009/1
Qualidade Freqüência
Ótimo 39
Muito Bom 5
Bom 10
Rápida 2
Eficiente 1
Tabela 16 – Avaliação da Clínica quanto à Satisfação no Processo Psicológico – 2008 e 2009/1
Qualidade Freqüência
Ótimo 13
Muito Bom 10
Bom 13
Satisfeita 9
Eficiente 5
Regular 1
Não marcou 6
Tabela 17 – Avaliação da Clínica quanto ao tempo de espera para vagas – 2008 e 2009/1
Tempo Freqüência
Três a quatro meses 2
Dois meses 2
Um mês 8
Duas semanas 13
Uma semana 14
Menos de uma semana 3
Não marcou 15
Tabela 18 – Avaliação da Clínica quanto aos atrasos para iniciar a sessão – 2008 e 2009/1
Resposta Freqüência
Não houve atrasos 32
Cinco a dez minutos 20
Quinze a vinte minutos 3
Não marcou 2

Considerações Finais

Finalizando, é importante pensar o papel das clínicas-escola de psicologia na formação dos futuros psicólogos e, como Silvares e Löhr (2006) apontam, é preciso refletir na construção de um corpo sólido de conhecimento relacionado às práticas profissionais. Também como papel das clínicas-escola, pode-se acrescentar que estas são produtoras de conhecimento assim como, adaptadoras do mesmo de acordo com cada contexto social ou regional.

Bem colocado por Silvares e Löhr (2006), “um bom profissional de psicologia necessita ter capacidade empática, repertório de habilidades sociais, maturidade pessoal, criatividade, capacidade de leitura apropriada do contexto, aliado ao domínio de conteúdo teórico e técnico e da preocupação com a conduta ética no exercício da profissional”.

Contudo, diante do que aqui foi exposto, pode-se pensar a clínica-escola de psicologia como um contexto acadêmico de formação profissional clínica e, de forma mais atualizada, além da prática clínica, forma-se também profissionais que atuem desde o social-comunitário; o preventivo, o grupo e o individual; a família, casal, criança e adolescente; o institucional alcançando a área hospitalar, organizacional e educacional. Entendendo que a clínica, atualmente, vem passando por profundas reflexões e por que não, transformações, onde se amplia o espectro de possibilidades de atuações profissionais formadas a partir da clínica-escola que pode deixar de preparar psicólogos para o mercado de trabalho, mas produzir conhecimento amplo em suas diversas formas de atuação psicológica.

Não deixando o foco desse projeto de lado, mas ao contrário, refletindo o objetivo da clínica-escola como um todo, pode-se salientar que ela apresenta dois tipos de clientes: o aluno e a comunidade atendida. Mas, esclarecendo a proposta deste projeto, é importante enfatizar que foi caracterizado aqui, não o profissional em formação, mas a comunidade atendida por esses. No entanto, fez-se necessário apresentar a importância da clínica-escola e, como seu valor insere-se de forma unida nesses dois contextos, acredita-se que foi válida a exposição.

Diante dos resultados obtidos foi possível observar algumas necessidades urgentes nesse contexto de estruturação da clínica-escola. É preciso pensar no valor humano, na questão social e ética e não permitir que o acadêmico sobressaia a esses; ambos devem andar unidos no sentido de entender que um depende do outro, é atendendo com qualidade, ética e respeito o ser humano a sua frente, que o estagiário terá condições de se constituir um bom profissional, construindo um saber que se estabelece em uma prática coerente e humana.

E, assim sendo, é necessário estruturar de forma mais sólida as normas de funcionamento da clínica, tornando-a rigorosamente cumprida por meio de sanções punitivas àqueles que não o fizerem; não valorizar o acadêmico em detrimento do social, mas lutar para que os dois tenham igual importância no seio do desenvolvimento desta clínica.

Como foi visto no decorrer do trabalho, a divulgação da clínica para a comunidade se mostrou insuficiente, podendo ser ampliada para além dos colégios; é preciso estender essa divulgação aos centros comunitários para idosos, já que foi o escore menor encontrado; realizar também um trabalho de conscientização dos pais para que estes sejam atendidos enquanto seus filhos já são. Entendendo com isso que, não se trata de desmerecimento da clientela infanto-juvenil – 50% da comunidade atendida na clínica – mas em levar esse atendimento aos pais e avós desses, aproveitando a clientela existente para desenvolver um trabalho que alcance a família como um todo, assim como, todas as faixas etárias possíveis, para assim, beneficiar um maior número de pessoas.

Também é preciso, antes de concluir, apresentar aqueles pontos que apontaram para possibilidades de novas pesquisas na área: em relação à escolaridade, foi confirmado que a clientela da Clínica-escola de Psicologia 27 de Agosto é predominantemente estudante, com um percentil maior de universitários, despertando uma curiosidade de se investigar se a intelectualidade influencia, facilita ou conscientiza melhor a população no sentido de entenderem a necessidade de um acompanhamento psicológico. Além disso, observou-se que, houve um aumento da procura pelo atendimento por parte dos casados e uma redução, por parte dos solteiros, o que pode ser investigado para analisar a relevância desta alteração, bem como, entender em que contexto se deu e porque motivo. Sem falar também numa pesquisa que investigue o porquê de as mulheres serem maioria quando se trata de procurar um psicólogo.

Incrivelmente, é muito vasto o campo de estudo e de pesquisa das clínicas-escola de psicologia, são inúmeras as possibilidades de pesquisa nessa área. Quanto mais se estuda, mais interesse surge e, junto com o interesse, surgem também, temas diversos como: uma análise das demandas, dos motivos de desistência, da relação do social com o acadêmico, uma pesquisa sobre os idosos em atendimento, sobre a própria família, a burocracia da clínica, o institucional influenciando o clínico, as várias modalidades inseridas na clínica-escola, e outros mais.

Por fim, a clientela da Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto foi caracterizada como sendo: mais feminina com o masculino também florescendo; infanto-juvenil; constituída em sua maior parte por estudantes, principalmente, universitários; uma clientela economicamente menos favorável, com uma média salarial para a família que está em sua maior parte em R$900,00 (novecentos reais) e R$2.000,00 (dois mil reais), sendo assim considerada uma clientela da classe baixa e da classe média-baixa; apresentando satisfação com os serviços prestados. E, ainda, para concluir, pode-se afirmar que esta clínica também apresenta como característica intrínseca o fato de ser iniciante no cenário das clínicas-escola de psicologia e, portanto, agora, em seu segundo ano de funcionamento é que começa a se delinear e se estabelecer como tal e, isto, com grandes possibilidades de sucesso em sua jornada acadêmica e social.

Fontes Consultadas

ANCONA-LOPES, M. Considerações sobre o atendimento fornecido por Clínicas-escola de psicologia. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Rio de Janeiro. 1983

HERZBERG, Eliana. Reflexões sobre o processo de triagem de clientes a serem atendidos em clínicas-psicológicas-escola. Coletâneas da ANPEPP – Universidade de São Paulo. Campinas/SP, 1996.

CAMPEZATTO, P. von M.; NUNES, M. L. Tiellet. Atendimento em clínicas-escola de psicologia da região metropolitana de Porto Alegre. Estudos de Psicologia, v.24 n.3 Campinas jul./sep. 2007.

PERES, R. S.; SANTOS, M. A.; COELHO, H. M. B. Perfil da clientela de um programa de pronto-atendimento psicológico a estudantes universitários. Psicologia em Estudo, v.9 n.1 Maringá ene./abr. 2004.

SILVARES, E. F. M. É satisfatório o atendimento psicológico nas clínicas-escola brasileiras? Coletâneas da ANPEPP – USP.

LÖHR, S.S. . O atendimento psicológico nas clínicas-escolas. 2004.

ROMARO, R. A.; GARCIA C. C.  Caracterização da clientela da clínica-escola de psicologia da Universidade São Francisco. Psicologia: Teoria e Prática – 2003, 5(1):111-121

PERFEITO, H.C.S; MELO, S.A. Evolução dos processos de triagem psicológica em uma clínica-escola. Psicologia: Teoria e Prática – 2000, 2(1): 3-31

ANCONA-LOPES, M. 1983, abr/jun). Considerações sobre o atendimento fornecido por clínicas-escola de psicologia. Arquivos Brasileiros de Psicologia; 2(35): 123-135.

ANCONA-LOPEZ, S. (1996, jan/jun). Reflexões sobre entrevistas de triagem ou: na prática a teoria é outra. Interações: Estudos e Pesquisas em Psicologia; 1(1):47-57.

SILVARES, Edwiges Ferreira de Mattos. Atendimento Psicológico em Clínicas-Escola. Editora Alínea e Átomo, 1ª edição, 2006.

GONZÁLEZ REY, F. L. (2002) O Enfoque Histórico-Cultural e seu sentido para a       Psicologia clínica: uma reflexão. Em Bock, A. M. B. et al (org.), Psicologia Sócio-      Histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. (pp. 193-214).  São Paulo. Cortez.

Manual do Estagiário da Clínica-Escola de Psicologia 27 de Agosto, 2008.

SILVARES, E. F. M. (2006) Atendimento Psicológico em Clínicas-Escola. Editora Alínea e Átomo, 1ª edição.

LOPES, A. M.(1983) Considerações sobre o atendimento fornecidos por Clínicas-escola de psicologia. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Rio de Janeiro.

HERZBERG, E. (1996) Reflexões sobre o processo de triagem de clientes a serem       atendidos em clínicas-psicológicas-escola. Coletâneas da ANPEPP – Universidade de São Paulo. Campinas/SP.

Constituição Federal do Brasil (27 de agosto de 1962). Lei nº 4.119, que dispõe sobre a formação em Psicologia e regulamenta a profissão de Psicólogo. Capítulo IV (Artigo 16, p.3). Acessado em abril 12, 2004, disponível em:      http://www.pol.org.br/legislacao/pdf/lei_n_4.119.pdf

PERES, W. S. (1998). A instituição do estágio: uma reflexão sobre os analisadores.

Psicologia em Estudo, 3 (2) 163-176.

PERES, R. S.; Santos, M. A.; Coelho, H. M. B. (2004) Perfil da clientela de um programa de pronto-atendimento psicológico a estudantes universitários. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 9,  n. 1, abr.

HERSBERG, E. (2009) Reflexões sobre o Processo de Triagem de Clientes a serem       atendidos em clínicas-psicológicas-escola. Coletâneas da ANPEPP, USP, p. 147-      154.

SILVA, J.T., & CUPOLILLO, M.V. (2005). Traçando caminhos para a compreensão da constituição subjetiva do envelhecer. Em Gonçales Rey, F. (org.), Subjetividade       complexidade em pesquisa em psicologia. (pp. 353-379). São Paulo. Thompson.

LEVIN, Jack; FOX, James Alan (2004). Estatística para ciências humanas – 9ª edição – São Paulo: Prentice Hall, 2004.

Anúncios

Link permanente Deixe um comentário

Next page »